Chegou o resultado da biópsia. O médico foi extremamente profissional. Não embrulhou a verdade. Colocou-a ali, à minha frente, fria, dura, gigantesca, monstruosa. O néon das lâmpadas pareceu esmorecer. Ao longe, devem ter posto em marcha um tanque militar. Oiço o solo gemer debaixo das suas lagartas. Sinto um frio imenso nas mãos e nos pés. Ou é nos braços e nas pernas? O chão do consultório está perfeitamente limpo. Sem poeira nem caruncho. Positivo, diz o médico. Positivo? Como é que pode ser positivo algo tão negativo? O Carlitos onde estará a esta hora? O Carlitos é meu filho. Tem doze anos. Ainda precisa muito de mim. E se eu lhe falto? Quando disse que era a operação, doutor? Como é a operação? Tenho que dizer à mãe. Ou talvez seja melhor não lhe dizer nada. Só lhe vou causar aflição. Mas ela não pode deixar de saber. Vou ter que lhe pedir para tomar conta da casa enquanto estiver aqui, no hospital. Amanhã, doutor? Não pode ser. Não posso ser internada enquanto não organizar a vida. Amanhã tenho que ir ao supermercado para deixar a casa abastecida. E o trabalho? Tem que ser amanhã? O Carlos tem aulas às oito e o Zé está para a província. Quem é que vai levar o miúdo à escola? Podia ser na segunda-feira, doutor. Não sei, mas três dias devem chegar. É tão pouco tempo. Isso deixa-me tempo para ordenar tudo. Está bem. Tenho que correr o risco doutor. Que confusão. Tens que pensar claro, Marta. É. Era isso que dizia o professor de matemática, no segundo ano. Como é que ele se chamava? Não se deve pensar em duas coisas ao mesmo tempo. Quantos dias é que vou precisar de ficar internada, doutor?
São horas de ir buscar o Carlitos. E vou telefonar ao Manuel. Já deve ter acabado o trabalho dele hoje.
09/02/07
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